Rooster
Minissérie de comédia da HBO Max protagonizada por Steve Carell
Artigo em português
Em Rooster, a série de comédia da HBO Max em 10 capítulos, protagonizada por Steve Carell, encontramos o ator interpretando uma figura bastante familiar: um homem de meia idade que oscila entre o ridículo e o humano. Carell é o escritor Greg Russo, que viaja até uma universidade para visitar a filha e professora Katie (Charly Clive), recém separada do marido, o também professor, especialista em literatura russa Archie (Phil Dunster), depois dele tê-la traído com a estudante Sunny (Lauren Tsai). O que poderia ser apenas mais um conflito familiar logo se transforma em um terreno fértil para algo que a série explora com habilidade: as fragilidades emocionais de pessoas adultas, que já deveriam ter as ferramentas adequadas para lidar melhor com as alegrias e tristezas da vida. Idade não é sinônimo de maturidade, certo?
Isto é bem explorado por Carell, que continua demonstrando um dos atributos que o destacam como ator, a capacidade de ser ridículo e melancólico em um mesmo olhar. Não se trata exatamente de um tipo de comédia politicamente incorreta, que provoca risadas nervosas, como The Office, mas de algo mais discreto, mesmo que eficaz à sua forma. É que existe uma tristeza latente no interior do personagem, como se estivesse constantemente percebendo que muito do que construiu na vida é, na realidade, uma projeção - que transporta à série de livros Rooster, protagonizada por um personagem que deve ser o homem que Greg gostaria de ter sido. Essa projeção é também dirigida à filha, que tenta guiar para um futuro mais sensato e gentil do que fora o seu passado mal resolvido; aliás, a dinâmica entre Carell e Clive é um dos pontos altos da série, na construção autêntica de um relacionamento pai e filha, mesmo quando temperado (e muito temperado) com os aditivos artificiais da sitcom.
Ao longo dos 6 primeiros episódios, Rooster ainda constrói um pequeno ecossistema de personagens curiosamente idiossincráticos - e como frequentemente acontece em sitcoms, são personagens que, de certa maneira, fingem ser pessoas reais, quando são só convenções oriundas de uma sala de roteiristas. Mesmo assim, nos envolvemos; vide o reitor Walter Mann (John C. McGinley), um sujeito passivo agressivo, que disfarça sua insegurança no autoritarismo bem humorado com que exerce o poder. É impossível só desprezá-lo ou odiá-lo, parecido com o que acontece com Archie, que é o antagonista, ao menos em tese: abandona a esposa, envolve-se com uma aluna e depois ainda tenta reconstruir o relacionamento passado. Ainda assim, a série criada por Bill Lawrence e Matt Tarses encontra formas de preservar um certo charme do personagem ou mesmo torná-lo vulnerável.
Em uma época de (compreensível) cinismo e niilismo, Rooster acerta ao não condenar nenhum personagem ou não os tornar redimíveis. Todos estão tentando, com maior e menor êxito, navegar o mar turbulento de suas incompetências ou limitações afetivas, emocionais e profissionais. Pois, ambientada no universo acadêmico, Rooster também aproveita esse cenário para comentar, ainda que de maneira leve, sobre a universidade como um espaço de formação intelectual, assim como de memórias e experiências, ou um espaço em que adultos imaturos podem continuar aprendendo com as expectativas frustradas que criaram para suas vidas.
Com episódios de 30 minutos, Rooster é uma comédia dramática leve, observacional e discretamente melancólica, com um conjunto de momentos exagerados e superlativos em interações cotidianas, constrangimentos evitáveis e familiaridades suficientes para ser o entretenimento descompromissado que pretende ser. Como nós, os personagens, apesar de suas falhas, estão apenas tentando aprender como viver com as suas falhas e imperfeições; e enquanto descobrem como fazê-lo, preenchem a lacuna dos domingos à noite.
Article in english
In Rooster, the ten-episode HBO Max comedy series starring Steve Carell, we find the actor playing a rather familiar figure: a middle-aged man who oscillates between the ridiculous and the deeply human. Carell plays writer Greg Russo, who travels to a university to visit his daughter and professor Katie (Charly Clive), recently separated from her husband, the fellow professor and Russian literature specialist Archie (Phil Dunster), after he cheated on her with the student Sunny (Lauren Tsai). What could have been just another family conflict soon becomes fertile ground for something the series explores skillfully: the emotional fragilities of adults who should already possess the proper tools to deal with life’s joys and disappointments. Age is not necessarily synonymous with maturity.
This is well explored by Carell, who continues to demonstrate one of the qualities that sets him apart as an actor: the ability to be ridiculous and melancholic within the same glance. This is not exactly the kind of politically incorrect comedy that provokes nervous laughter, as in The Office, but something quieter, even if effective in its own way. There is a latent sadness inside the character, as if he constantly realizes that much of what he built in life is actually a projection, one that carries over into the series of books titled Rooster, whose protagonist represents the man Greg wishes he had been. This projection is also directed toward his daughter, whom he tries to guide toward a more sensible and kinder future than the unresolved past he himself lived. The dynamic between Carell and Clive is one of the show’s highlights, creating an authentic father-daughter relationship even when it is heavily seasoned with the artificial additives of the sitcom format.
Across the first six episodes, Rooster also builds a small ecosystem of curiously idiosyncratic characters. As often happens in sitcoms, they behave in ways that feel less like real people and more like conventions emerging from a writers’ room. Even so, we become invested in them. Take the university dean Walter Mann (John C. McGinley), a passive-aggressive figure who disguises his insecurity through the humorous authoritarianism with which he exercises power. It is impossible to simply despise or hate him, much like what happens with Archie, who is the antagonist, at least in theory. He abandons his wife, becomes involved with a student, and then attempts to rebuild the previous relationship. Even so, the series created by Bill Lawrence and Matt Tarses finds ways to preserve a certain charm in the character or even render him vulnerable.
In an era of understandable cynicism and nihilism, Rooster succeeds by neither condemning its characters nor fully redeeming them. All of them are trying, with varying degrees of success, to navigate the turbulent sea of their emotional, professional, and personal limitations. Set within the academic world, the series also uses this environment, albeit lightly, to comment on the university as a space of intellectual formation, as well as of memories and experiences, a place where emotionally immature adults can continue learning from the frustrated expectations they have created for their lives.
With 30-minute episodes, Rooster is a light dramedy that is observational and quietly melancholic, filled with exaggerated moments, heightened interactions, avoidable embarrassments, and enough familiarity to serve as the unpretentious entertainment it intends to be. Like us, the characters, despite their flaws, are simply trying to learn how to live with those flaws and imperfections. And while they figure that out, they fill the quiet gap of Sunday nights.




