Imparável
Uma incrível história real
Imparável é uma oportunidade para refletir acerca da representatividade de pessoas deficientes na arte, representação de personagens deficientes, conteúdo inspiracional em face à forma convencional, e tantos outros aspectos que considero até difícil saber por onde iniciar a explorar esta cinebiografia do lutador de luta livre Anthony Robles, que nasceu com só uma perna e foi abandonado pelo pai na infância. A sua deficiência não foi impeditivo, somente obstáculo, para disputar a modalidade contra pessoas não deficientes e, mesmo que não viesse a se tornar campeão, sua trajetória é uma história motivacional sem tirar nem por. Uma história motivacional inspirada em uma outra, a de Rocky Balboa, do clássico de 1976, que, de certo modo, é também inspirada de uma história motivacional. É um filme à prova da crítica, de certo modo, porque senão pela força da expressão artística, Imparável sempre pode apoiar-se no conteúdo retratado como uma espécie de muleta criativa.
Escrito a seis mãos, o roteiro de Imparável realiza um recorte na história de Anthony Robles, a partir do término do ensino médio e da recusa de uma bolsa de estudos, para participar da peneira e integrar a equipe de luta livre da Universidade do Arizona, que é treinada pelo exigente Sean (Don Cheadle). Vivido por Jharrel Jerome, da minissérie Olhos que Condenam e do vencedor do Oscar Moonlight, Anthony ainda vive debaixo do mesmo teto com a mãe (Jennifer Lopez), o padrasto e policial (Bobby Cannavale) e seus quatro irmãos. Ele convive com o abuso verbal do padrasto e assiste, calado, às marcas da violência doméstica no corpo da mãe. A raiva é o combustível trazido às lutas, onde a deficiência torna-se uma oportunidade para explorar uma técnica de combate que lhe rende o apelido de serpente (ou algo parecido. A versão a que assisti era somente com as legendas em inglês), pela habilidade e destreza com que explora a luta de solo. Parecido com Rocky, Anthony deve lidar com a frustração oriunda do mundo exterior e não deixá-la extravasar no ringue porque, dentro dele, reúne todo o necessário para se transformar em um campeão.
Imparável chama atenção imediatamente pela escalação de Jharrel Jerome, ator não deficiente, para interpretar um personagem deficiente, em um contexto da indústria e sociedade de maior representatividade, que aqui é resultado da falta de oportunidades a atores deficientes. A minha relação é delicada. Se o talento dramático de Jherome já havia sido referendado em trabalhos anteriores, o ator agora se dedica fisicamente de uma forma admirável. Com o auxílio de efeitos computadorizados - que removem sua perna digitalmente -, o ator aprendeu a se movimentar e lutar como Anthony Robles - que é o seu dublê em outras cenas. Em contrapartida, a direção de elenco perdeu uma oportunidade de escalar um ator deficiente para o mesmo papel - considerando ainda que já seria respeitada as exigências mínimas de acessibilidade, vez que Anthony era parte da equipe de filmagem.
Além da questão de representatividade, também há a questão de representação. Ou como gosto de ponderar, enxergar a deficiência ou enxergar além da deficiência? A narrativa tem um jeito dúbio de enxergar a situação. Anthony é capaz de enfrentar de igual seus adversários e de cuidar de si, sem que ninguém precise ajudá-lo quando cai - no treino que consiste na escalada de uma colina -, e esses atributos somados à personalidade de Anthony convidam o espectador à reflexão de que é bastante tratar pessoas deficientes como iguais, a ponto de o treinador fazer uma brincadeira afetuosa, mas problemática, de não ter percebido que o lutador não tinha uma perna. Uma abordagem como essa é problemática e até perigosa, pois pode sabotar os esforços pela acessibilidade, que são os meios que conferem o tratamento justo a quem tem deficiência.
Nada do que falei deprime os esforços da direção de William Goldenberg - que estreia na função, embora tenha uma carreira premiada com o Oscar de Montagem - de criar tensão e dramaticidade, como é possível concluir nas lutas. E mesmo eu, ignorante na modalidade, e até talvez por desconhecer o resultado dos combates, fui envolvido pela direção que empregou recursos vistos em Rivais, como fotografar sob uma superfície transparente os atores enquanto lutam. Quem atrapalha o envolvimento emocional é a falta de habilidade da direção em administrar a subtrama do abuso doméstico, da qual a trama central depende, quebrando o ritmo e a evolução dos desdobramentos de uma forma, no mínimo, conveniente. É como se a narrativa envidasse os esforços para que a mãe e o filho encontrassem uma harmonia no mesmo momento, e ainda que pareça bonito na teoria, na prática prejudica ambos.
Além do mais, ainda que seja uma fórmula testada e aprovada, às vezes é frustrante o quanto Imparável pode ser ordinário tratando de um sujeito extraordinário. E claro, não vou ignorar que Anthony nasceu sem uma perna, mas o que o fez mesmo especial é que, igual a sua inspiração, aprendeu cedo que toda queda é uma oportunidade de se levantar.
Imparável está disponível no catálogo da Prime Vídeo a partir de 16/01/2025.




